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Ave Maris Stella: O Culto da Virgem Maria na Europa Medieval

© Arte das Musas

in Catálogo do 2.º Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo “Terras sem Sombra” 2004

 

 

ESPAÑOL Programa totalmente dedicado a la Virgen.

 

ENGLISH Ave Maris Stella ("Hail Star of the Sea"): The cult of the Blessed Virgin in Medieval Europe. A program totally dedicated to the Holy Virgin.

 

PORTUGUÊS Desde tempos muito remotos que o culto da Virgem Maria tem deixado uma marca profunda e duradoura no pensamento religioso, na arte, na literatura e em todo o imaginário simbólico da civilização europeia. Com o aparecimento da Festa da Conceição durante a Idade Média, as manifestações devocionais em honra da Virgem multiplicaram-se e consolidaram-se, no âmbito não apenas da vivência religiosa de mosteiros e abadias, mas também, de um modo geral, das comunidades seculares. Tal interesse pela transcendência feminina não deixa de ter uma relação palpável com a imagem da mulher na cultura e na sociedade celtas, a qual perdurou, inevitavelmente, na memória artística, literária e mitológica da sociedade medieval. A este propósito, é muito significativo que várias das grandes catedrais medievais europeias consagradas ao culto mariano, como as de Le Puy-en-Velay e Chartres, tenham sido edificadas em lugares que, no passado, ostentaram altares celtas destinados à veneração de mulheres-deusas. Também a música participou, de forma continuada, neste movimento de expansão do culto da Virgem, desde a época das grandes catedrais até ao apogeu da Ars Nova, no século XIV.

Para o presente programa, o Ensemble Vocal Introitus seleccionou um conjunto de peças musicais de diferentes proveniências e estilos, no qual se incluem dois exemplos do repertório monódico de canto gregoriano: Ave Maris stella, hino para Vésperas das Festas Comuns de Nossa Senhora cuja origem remonta, pelo menos, ao século IX, e a comunhão Diffusa est gracia, uma melodia de surgimento mais tardio, associada à Missa de Santa Ana no Liber Usualis, mas que conhece outras contextualizações litúrgicas, inclusive no rito Sarum. Outra linha de expansão inicial do culto mariano é ilustrada pelos dois exemplos das Cantigas de Santa Maria, colecção de 419 poemas galaico-portugueses, compilada no reinado de Afonso X (†1288) de Leão e Castela e que surge como exemplo lídimo da influência do movimento trovadoresco provençal na Península Ibérica.

Do grande representante da prática polifónica inicial na Catedral de Notre Dame de Paris, Magister Pérotin (ca.1160-1238), ouviremos os organa a três vozes Alleluia nativitas e Virgo flagellatur, obras reveladoras do rigor das sonoridades “românicas”, anguladas pelas longas melodias de cantochão que lhes servem de base e pela sucessão das consonâncias perfeitas de quinta e oitava. Sucede-se o motete Gaude Virgo, de autor inglês anónimo e duas peças pertencentes aos denominados “fragmentos de Worcester”, fonte fundamental para o conhecimento da música inglesa do século XIV: o intróito Salve sancta parens e o conductus Beata viscera. A Lauda italiana Venite a laudare representa, por sua vez, a mais antiga colecção de cantos religiosos em língua vernacular que se conhece, compilada no século XIII por monges franciscanos e conhecida como o Laudario di Cortona.

O belíssimo motete devocional do compositor inglês John Dunstable (ca. 1385-1453), cristaliza algumas das características estilísticas presentes no repertório de Worcester, designadamente as sucessões de terceiras e sextas paralelas, tão típicas da música inglesa deste período. Por outro lado, o compositor faz contrastar diferentes tipos de textura musical, como forma de sublinhar a delicada poesia das palavras. O grande entusiasmo que Dunstable e outros seus contemporâneos nutriram pelas temáticas marianas relaciona-se, de perto, com a eclosão da Devotio moderna, movimento de grande fervor espiritual, direccionado para o culto da Virgem e da Cruz de Cristo e cuja influência se estendeu a toda a Europa.

Por último, o Ensemble Vocal Introitus interpretará ainda quatro composições provindas do Llibre Vermell de Montserrat, um manuscrito elaborado nos finais do século XIV ou princípios de século XV, cuja designação teve origem na encadernação de veludo vermelho que foi feita para o proteger, nos finais do século XIX. Trata-se de um conjunto de canções e danças devocionais, produto da arte de diferentes autores que foram, provavelmente, os próprios monges do mosteiro catalão de Montserrat, e que reflectem, no seu estilo e nas suas formas, as principais inovações trazidas ao panorama musical europeu pelo movimento da Ars Nova, iniciado em França por Philippe de Vitry (1291-1361).

   

Rui Cabral Lopes

© 2004 Arte das Musas

 

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